27/08/2011

Versificação – parte 2/4: RIMA


Olá, povo!

Rapidamente termine de limpar a casa, corra para o banho e lembre-se de deixar as camisas passadas.

Vamos dar continuidade à nossa novela da sala de estilística. Esta é a parte 2 de 4. Caso você ainda não tenha visto a 1ª parte, clique aqui.

É hora de conhecer a rima. Vamos a ela:

O que é RIMA?

Rima é a semelhança de sons estrategicamente colocados em alguns versos.
Veja isso:

“Quando morreu minha amada,
Vinha raiando a manhã.
Três vezes na encruzilhada
Ouvi cantar a acauã.”

(Ludovico Lins)

Uhh... trágico!

Veja que a terminação -ada finaliza a palavra amada (1º verso) e a palavra encruzilhada (3º verso). Temos também a vogal no final da palavra manhã (2º verso) e no final da palavra acauã (4º verso). Essas terminações colocadas de maneira estratégica tornam semelhantes os sons das palavras amada/encruzilhada e manhã/acauã. Representando de outra forma, podemos dar letras às rimas; veja como está estruturado o poema acima no que pode ser observado sobre as rimas:

1° e 3° VERSO – terminação -ada — representaremos com a letra A
2º e 4° VERSO – terminação — representaremos com a letra B

Portanto:
__________A
__________B
__________A
__________B

Percebam que as terminações nesse primeiro exemplo foram idênticas nas correspondências. Existem casos em que não há perfeição de rimas. Veja:

“Tanto limão, tanta lima,
Tanta silva, tanta amora,
Tanta menina bonita...
Meu pai sem ter uma nora.”

(Versos populares)

Veja que na relação A-A (lima – bonita) não há perfeição. A semelhança dos sons não corresponde totalmente como em B-B (amora – nora). Diz-se, portanto, que, na relação A-A deste 2º exemplo, temos rimas TOANTES ou ASSONANTES, rimas que se correspondem, geralmente, apenas pelas vogais tônicas ou vogais a partir da tônica. Nas relações A-A e B-B do 1º exemplo e B-B do 2º, temos rimas SOANTES ou CONSOANTES, rimas que se correspondem completa e perfeitamente.

O ACENTO DAS RIMAS

Lembra-se das oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas? Então… em versificação também podemos classificar as rimas pela posição do acento tônico. Nesse caso, o acento tônico da última palavra de cada verso deixa de ser apenas da palavra na qual ele está e passa a ser o acento tônico DO VERSO INTEIRO. Olha só!

(…)

“Da meia-noite pro dia
Viraram em namoração
O Lagarto namorava a Cutia
Pelas restas do lampião”

(O casamento da Onça)

Analisemos: vamos pegar a sílaba tônica da última palavra do 1º verso, di(-a). OK. Na relação de rimas A-A deste exemplo, vemos que o 3º verso é o correspondente; façamos o mesmo com ele, (Cu)-ti-(a). Temos, assim, as silabas di e ti. Estas são as tônicas, respectivamente, do 1º e do 3º verso; nelas reside a essência da rima A-A do exemplo dado. Percebemos que são rimas TOANTES. Percebemos também que são seguidas por outra sílaba; elas são as tônicas de seus versos, mas não são as últimas dos mesmos; depois de di temos uma átona a e depois de ti temos outra átona a. As rimas cuja tônica não se localiza na última posição do verso são chamadas de rimas GRAVES. As rimas cuja tônica se localiza na última posição do verso são chamadas rimas AGUDAS; é o que acontece na relação B-B do exemplo acima, (namora)-ção e (lampi)-ão.

RIMA PERFEITA e IMPERFEITA (ou parcial)

Vamos deixar claro um fato: só há rima quando há semelhança de SONS. Letras iguais nem sempre produzem rima. Vejamos exemplos de rimas perfeitas, quando há perfeição na combinação de sons:

“Eu não vou louvar valores,
Dos nossos amores as dores eu não vou contar,
O peito trajado de dores
A boca tragando rancores
E a dúvida nossa era aonde chegar.”

(Eu não sou Chico mas quero tentar - TM)

Temos aí as relações de rimas no seguinte esquema:

____AB
___BBA
_____B
_____B
_____A

Todas as correspondências A-A e B-B são de rimas perfeitas por serem compostas por sons idênticos nas tônicas.

Vejamos rimas imperfeitas repetindo um exemplo já dado:

“Tanto limão, tanta lima,
Tanta silva, tanta amora,
Tanta menina bonita...
Meu pai sem ter uma nora.”

(Versos populares)

O 1º verso rima de maneira imperfeita com o 3º.

RICAS e POBRES

São ricas as rimas compostas por palavras de classe gramatical diferente como em:

“Eu entrei pra ratoeira,
Mas não foi com alegria (substantivo).
Na ratoeira não está
Quem meu coração queria (verbo).”

São pobres as rimas muito comuns e com palavras de mesma classe gramatical como as com terminações de gerúndio (caminhando e cantando...), diminutivos (... pintinho amarelinho...) etc.

Há ainda outras análises das rimas. Uma pena não poder mostrar detalhadamente cada uma aqui; o texto ficaria enorme. Espero ter mostrado o principal. Qualquer interesse por mais detalhes, por favor, entrem em contato. Na terceira parte desta saga falaremos sobre o METRO e talvez consigamos falar mais sobre rimas e outros detalhes acerca da versificação em língua portuguesa. Na parte 4, então, fecharemos com chave de chocolate com a ESCANSÃO.

Até mais e obrigado por lerem esta última frase!

10/07/2011

Trilha das confusões da Língua - pt1: A BAIXO / ABAIXO - A CIMA / ACIMA


Olá!

Começaremos, a partir de agora, aqui na sala de semântica, uma aventura pelo campo arenoso da nossa língua. Sabe quando você não sabe onde pisar? Aqueles momentos em que você se encontra numa situação de difícil saída? Fica confuso? São momentos que te desafiam; você terá opções e torce para escolher a correta e, nessas situações, nossa língua não perdoa: pisou errado, afundou!

Vamos discutir os pontos que sempre nos deixam com dúvidas em alguns momentos de uso, sejam os da fala ou os da escrita. Espero ter a ajuda de vocês para que não deixemos escapar nenhum deles. Meu objetivo é acabar com todas as polêmicas causadas por essas palavras, expressões e termos danadinhos do nosso bom Português Brasileiro. Será uma saga sem previsão de término. Vamos à luta!

Parte 1:

A BAIXO ou ABAIXO?

Comecemos pelas “profundezas”.

Quando devemos usar A BAIXO?

Fácil! “A baixo” é o mesmo que “para baixo”, entende? Portanto:

Ex.: “Ela observou sua rival de cima a baixo.”

Quando usar ABAIXO?

“Abaixo” é advérbio que indica “uma coisa que está em lugar ou posição inferior a outra”. Veja o exemplo abaixo.

Ex.: “Este exemplo está abaixo da explicação que acabei de dar.”

“Abaixo” também pode ser interjeição. Quando se deseja reprovar uma coisa em uma manifestação, é comum ouvir gritos como “Abaixo a aprovação automática!”

A CIMA ou ACIMA?

Fácil! É exatamente o oposto do que foi mostrado acima... óóóóó! (Sutil, hem!)

“A cima” é o mesmo que “para cima”, entende? Portanto:

Ex.: “Ela observou sua rival de baixo a cima.”

“Acima” é advérbio (também) e indica “uma coisa que está em lugar ou posição superior a outra”. Veja o exemplo abaixo.

Ex.: “Esta frase exemplifica a explicação acima.”

Não perca o próximo capítulo da nossa caminhada pela trilha das confusões da Língua. Será, claro, aqui mesmo na sala de semântica.

A gente se vê!

25/06/2011

AS SUBSTÂNCIAS DA ORAÇÃO - 1ª parte: O ESTUDO DO SUJEITO

Oi!

Começou! Começou!

Começou o jogo que tem a análise sintática como mestre final. Ative a visão de raio-x, apague a luz, acenda a fogueira e VIVA A SÃO JOÃO!

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Estamos aqui novamente para conversar sobre as partes que compõem a oração. Para tanto, deve-se explicitar sua composição por elementos “essenciais” (substâncias) que se relacionam sintaticamente. Entenda: a sintaxe nasce a partir do momento em que uma palavra (elemento “essencial”, termo “essencial”, substância) se relaciona com outra (ou com um contexto e situação externa ao enunciado). Sim! Uma palavra sozinha, fora de contexto, não é objeto de estudo da sintaxe, mas quando há ligação contextual ou duas palavras que se relacionam, habemus chester! Digo, SINTAXE!

Os dois principais elementos de uma oração são o SUJEITO e o PREDICADO. Na nossa primeira parte substancial (dos termos, dos elementos e do que mais seja dito necessário, “essencial”) veremos o SUJEITO. É! O tal sujeito será encontrado e compreendido; assim espero…

Dá-se o nome de SUJEITO ao termo sobre o qual se declara algo. Entendeu? Permita-me mostrar um exemplo:

Ex.: Este blog é muito bom!

(Agora responda: Qual termo declara alguma coisa? E declara isso sobre qual termo? Opa! Surge a nossa primeira análise sintática!!!)


Sim, o segundo elemento da nossa análise declarou algo sobre o primeiro, descobrindo, assim, o sujeito. Entendeu? Agora preste atenção: nem sempre o sujeito está no início bonitinho como no exemplo. Às vezes, o encontramos no final, no meio da oração ou em lugar nenhum! (O.o)

- As pessoas boas devem amar seus inimigos. (sujeito no início da oração)

- Estavam lindas aquelas garotas! (sujeito no final)

- Eram os Deuses astronautas? (tá ali enfiado no meio da oração (¬.¬))

- Fui ao cinema ontem (cadê? ahááá… escondidinho → (eu) Fui ao cinema ontem)

Vejamos agora os tipos de sujeitos e suas classificações normativas. Segura essa!

SUJEITO DETERMINADO – é aquele facilmente determinado, mesmo quando vier escondidinho como no último exemplo mostrado. O sujeito determinado ainda pode ser:

Sujeito determinado SIMPLES – quando for composto por apenas 1 (um) núcleo. O que é núcleo do sujeito? É a principal palavra do termo.

Ex.: Meu mundo desabou!


Sujeito determinado COMPOSTO – adivinha! É isso mesmo, quando o sujeito tiver MAIS de um núcleo. Olha só:

Ex.: A música e o café me movem.


Sujeito determinado OCULTO (elíptico) – é o escondidinho... aquele que não se vê... mas está lá (o.o). A desinência verbal é a principal denunciante desse sujeito.

EX.: Passaremos o São João em Caruaru.
  

SUJEITO INDETERMINADO – é aquele que não se deixa determinar. Pode ser impossível determiná-lo ou apenas não ser necessário ou desejável. Ele não vem explícito na oração e não nos traz informações que ajudem a reconhecê-lo. Por favor, não confunda com o oculto, que é facilmente encontrado apenas analisando as informações necessárias na oração. Aqui não há essa possibilidade.

EX.: Assassinaram o camarão. (kkk! É da música “O assassinato do Camarão” dos Originais do samba, a banda do genial Mussum)


Há ainda ORAÇÕES SEM SUJEITO – tá vendo?! Por isso não gosto de usar a palavra “essencial” neste tema. Ora, se dizem a você que o sujeito é um termo essencial em uma oração, rebata perguntando “Por que há, então, orações sem sujeito?” É, gente, a coisa é complexa...

As orações sem sujeito são formadas por verbos impessoais (não sabe o que são verbos impessoais? Peço que aguarde um pouco. Logo haverá, na sala de morfologia, tal assunto). Não confunda com sujeito indeterminado nem, pior ainda, com o oculto.

Para matar essa charada, deve-se aplicar o máximo de atenção possível no sistema verbal da oração. Localizando os tais verbos impessoais, descobre-se, portanto, que não existe sujeito (se o verbo é impessoal, significa que não está ligado a uma pessoal gramatical; não há sujeito, então).

Alguns exemplos de verbos causadores das orações sem sujeito são:

- haver significando “existir”;

ferrugem nos sorrisos” (Legião Urbana) = oração sem sujeito (existe ferrugem nos sorrisos).

- fazer, ser e estar indicando tempo passado ou fenômeno natural;

Está frio, gente!”

- verbos que indicam fenômenos da natureza.

Chove lá fora e aqui faz tanto frioooo…” (Lobão)

Eis aqui uma imagem que ajudará nos estudos dos sujeitos. Com vocês, a árvore dos sujeitos:

Muito bem!

Alguma dúvida?

Se houver, diga-me!

Antes de irmos para o predicado, eu gostaria de apresentar, na próxima matéria aqui da sala de sintaxe, as análises dos curiosos SINTAGMAS VERBAIS e SINTAGMAS NOMINAIS. Creio que o conhecimento destes é interessantíssimo e irá ajudar na nossa caminhada. Saberemos tudo sobre eles.

Obrigado e até lá!